O Grupo Parthos deu início aos seus trabalhos em agosto de 2006, no programa de pesquisa PIBIC, da UFES, com a pesquisa “Parthos – Estudo sobre a relação entre corpo e alma a partir das paixões manifestadas nas mulheres durante o período perinatal fundamentado nos pensamentos de René Descartes e Jacques Lacan” o público alvo era advindo de consultório particular. Tendo em vista a importância da pesquisa, o projeto passou a abranger pacientes do sistema público de saúde. Desse modo, propusemos em junho de 2007, ao Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da UFES que acolhesse a pesquisa no âmbito da sua unidade institucional acadêmica.
O trabalho no ambulatório de Ginecologia e Obstetrícia do HUCAM (Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes) consistia na realização de três entrevistas: uma durante a gestação (depois de 20 semanas), outra logo após o parto, e a última seis meses depois do parto. Tinham o objetivo de investigar os sentimentos apresentados pelas mulheres nesse período. Esse trabalho ocorreu durante os anos de 2007 e 2008 e teve muitas dificuldades no que tange a aderência do trabalho dentro do hospital. É sabido que a inserção da psicologia no hospital enfrenta muitas dificuldades (GUEDES, 2006), a começar pela aceitação por parte dos médicos que ainda é bastante tímida (WALLIG e FILHO, 2007). Esse trabalho não foi fácil, porém inovador, já que a psicologia no contexto hospitalar ainda é vista com certa estranheza pelos profissionais que ali atuam (YAMAMOTO e CUNHA, 1998). Além do trabalho realizado dentro hospital também fazíamos visitas às casas das gestantes. A maior parte das mulheres moravam em áreas periféricas da grande Vitória, porém algumas moravam no interior. Para alcançá-las pedíamos a Universidade que cedesse um carro que nos levava até a casa das mulheres.
Em 2009 foi iniciada mais uma pesquisa no âmbito institucional, que se realiza na Unidade de Saúde da Família (USF) Thomaz Tommasi vinculada ao Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, que mantém a parceria entre os Departamentos, e possibilita ao Grupo Parthos um trabalho interdiscilplinar. As atividades do grupo se inserem no escopo das políticas de Saúde da Mulher proposta pelo Ministério da Saúde (MS), tais como o I) Programa de Humanização do atendimento ao pré-natal, parto, puerpério e aborto/HumanizaSUS (BRASIL, 2001) e o II) Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal (BRASIL, 2004). Segundo o Ministério da Saúde à mulher deve ser conferido o seu “direito de cidadania mais elementar, dar à luz, recebendo uma assistência humanizada e de boa qualidade” (BRASIL, 2003, p. 5).
Artigos Grupo Parthos - 2009/2010
Ambivalências e ressonâncias das paixões amor e ódio no período perinatal.
Polyana Barbosa Schimith; Claudia Murta
Introdução
Este projeto visou à elaboração de uma pesquisa sobre o tema da distinção alma e corpo e sua relação com as paixões amor e ódio que afetam as mulheres durante o período perinatal. Nesta pesquisa, o ódio é entendido como raiva, que é uma paixão derivada do ódio. Mais precisamente as ambivalências entre as paixões citadas. Para fundamentar este debate no decorrer do seu desenvolvimento, foi utilizada a referência filosófica de René Descartes e a referência psicanalítica de Sigmund Freud, que traz contribuições relevantes acerca do estudo dessas paixões.
Objetivos
O objetivo desta pesquisa é investigar a ambivalência das paixões amor e ódio em mulheres no período perinatal.
Método
A amostra foi composta por 33 gestantes atendidas pela Unidade de Saúde da Família Thomaz Tommasi em Vitória.
Para coleta de dados foram usados os seguintes instrumentos:
- entrevistas abertas, individuais e confidenciais, seguindo o método psicanalítico.
- questionário para levantamento de perfil sócio-econômico
Resultados
Perfil
O Delineamento do perfil das participantes demonstrou que a maior parte das voluntárias dessa pesquisa (60,6%) são jovens e têm entre 21 e 29 anos. Mesmo essas mulheres sendo ainda muito jovens, quase 40% delas já tiveram três ou mais gestações e quase metade são mães de pelo menos dois filhos (48,5%). Além disso, quase 40% dessas mulheres declaram-se com solteiras. 60,6% declaram possuir nível médio de escolaridade. Diante desses dados se pudéssemos traçar um perfil médio das mulheres que se vincularam a essa pesquisa, assim seria: mulher jovem, com ensino médio de escolaridade, solteira, com dois ou mais filhos.
Sentimentos:
| Entrevista | Clínica Privada | HUCAM | USF |
| Primeira | 4,5% | 3,7% | 3% |
| Segunda | 6,2% | 5,2% | - |
| Terceira | 12,9% | 13,8% | - |
Tabela 1 – Amor
| Entrevista | Clínica Privada | HUCAM | USF |
| Primeira | 0% | 5,9% | 12% |
| Segunda | 0% | 0% | - |
| Terceira | 0% | 0% | - |
Tabela 2 – Ravia
Discussão e considerações finais
Em relação à paixão Amor, nessa primeira entrevista, o dado que obtivemos foi de 3,0%. Esse dado é coerente com os resultados obtidos nas pesquisas anteriores, em que obtivemos índices ligeiramente maiores que o atual. Essa baixa taxa de amor pode ser justificada pelo fato de que para existir essa paixão é necessário que haja um objeto presente. Durante a gestação não há uma separação entre mãe e filho, pelo contrário, existe uma unidade feto-materno-placentária, desse modo, não há objeto a ser amado. Porém, algumas participantes disseram amar os filhos que ainda gestavam. Nesses casos, entende-se que o que é verbalizado como amor, é na verdade, desejo. Segundo Descartes, o desejo é uma paixão que está ligada ao futuro, sendo descrita como “[...] uma agitação da alma causada pelos espíritos que a dispõe a querer para o futuro coisas que ela representa como convenientes para sim.” (DESCARTES, art. 86).
Em “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud (1905 [1996]) afirma que é dever da mãe ensinar o filho a amar. No mesmo texto o autor esclarece que a mãe cumpre sua tarefa ao cuidar, acariciar, beijar, acalentar o filho. Assim, a ausência da paixão amor durante a gestação não parece ser nenhum empecilho para que a mãe se realize enquanto tal, e realize sua tarefa, já que durante a gestação não existe o outro, ainda não existe a criança separada do corpo da mãe, para que a mãe possa expressar por ela algum sentimento ou cuidado. Isso pode ser comprovado a partir dos dados das pesquisas anteriores, em que a partir da terceira entrevista – que é realizada seis meses depois do parto – temos o aparecimento dessa paixão.
Esses dados apontam para o fato de que o amor materno se constrói e não é inato. Sendo assim, a partir dos resultados da pesquisa, podemos afirmar que o amor materno, tão importante para que a criança se constitua como sujeito, não é instintivo.
O índice obtido em relação à Raiva foi de 12,0%, o que também é coerente com os dados das pesquisas anteriores. Mesmo quando o Raiva aparece, não é manifestado em relação ao bebê, mas em relação a alguém próximo.
Referências:
DESCARTES, René. As Paixões da Alma. Tradução de Pascale Darcy. São Paulo: Martins Fontes. 1998 [1649].
FREUD, Sigmund (1905) Os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
A angústia da mulher no perinatal
Nathália Loureiro Carvalho; Claudia Murta
O Ministério da Saúde, em 2004, lançou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, onde se colocou em foco a saúde materna e neonatal, buscando compreender o ser humano em sua totalidade corpo/mente considerando também o contexto social, econômico e cultural dos indivíduos. Desde agosto de 2006, o grupo Parthos estuda e pesquisa a relação entre corpo e alma a partir das paixões manifestadas nas mulheres durante o perinatal e o puerpério procurando atender e compreender a mulher e os sentimentos que a atravessam neste momento da vida. Foi pensando nisso, que surgiu o título para a pesquisa: “A angústia da mulher no perinatal”.
Objetivo
Objetivou-se estudar a manifestação da angústia e como ela se presentifica e assume papel importante no cotidiano das gestantes contornando e construindo um novo sentido de ser.
Metodologia
Participaram da pesquisa 33 gestantes atendidas pela Unidade de Saúde Thomaz Tommasi, entre 2009/2010. Foram realizadas entrevistas abertas, individuais e confidenciais seguindo o método elaborado no modelo da técnica psicanalítica. Também foi utilizado um questionário sócio-demográfico e gineco-obstétrico, buscando fazer uma anamnese das pacientes. O estudo se valeu de um corte quali-quantitativo.
É importante salientar, que a presente pesquisa corresponde a três etapas. Os dados aqui apresentados são correspondentes à primeira etapa da pesquisa que constitui o período perinatal, existindo ainda mais duas etapas que se darão logo após o parto e seis meses depois do parto.
Atividades:
- Grupo de estudos
- Reuniões técnico-administrativas
- Oficinas temáticas
- Intervenção terapêutica
Resultados
Gráfico das categorias das paixões
De acordo com os dados, a angústia apresentou uma porcentagem de 16%, muito próximo da tristeza. Não se pode dizer que o afeto da angústia está vinculado a tristeza, pois estes sentimentos não necessariamente caminham juntos. A angústia está mais vinculada a uma sensação de estranheza e de se romper com o que lhe é familiar.
“Com as mudanças em meu corpo, sentia algo diferente, mas não sei o que é esse diferente. No fim da gravidez só pensava no parto chegar logo” J.G.M
“No começo fiquei com receio, mas não por causa da gravidez, mas porque tive Câncer. Fiquei com receio devido aos riscos. Não tive problema com rejeição ao bebê e o receio não era medo” E.P
Considerações Finais:
Uma das características do afeto da angústia, de acordo com os referenciais teóricos estudados, é a impossibilidade de ser significantizada. Como resultado, busca-se outras palavras que possam nomear o que se sente. Assim, muitas vezes a angústia é confundida com o medo, a preocupação, ansiedade e insegurança.
Estudar o afeto da angústia em particular em gestante/puérperas favorece a prática de um trabalho humanizado onde a escuta é oferecida como forma de dar voz ao sentimento e às paixões que as mulheres manifestam neste período. Há diferentes respostas e projetos diante de uma gravidez, deste modo, para além da atenção direcionada a estados fisiológicos e a imensa disponibilidade de serviços que buscam dar suporte à gestante, esta pesquisa pretendeu mostrar como paixões e afetos, em particular a angústia, traça contornos únicos que, de acordo com o filósofo Martim Heidegger (1927, [2004]), singulariza a presença se projetando para as possibilidades.
Referências:
BRASIL, Ministério da Saúde. Manual Técnico. Pré-Natal e Puerpério: Atenção Qualificada e Humanizada. Brasília, 2006.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis:Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco,2008; p.246-264.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro X: a angústia. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; versão final Angelina Harari e preparação de texto André Telles, tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
Da paixão tristeza e sua relação com a depressão pós-parto manifestada no período puerperal
Soraya De Lima Cabral Conturbia
sconturbia@hotmail.com
Introdução
O trabalho que será aqui descrito encontra-se inserido no grupo de pesquisa e intervenção “PARTHOS” que é desenvolvida desde 2006, que tem como tema o estudo das paixões/sentimentos e a assistência às mulheres participantes do projeto. A pesquisa desenvolvida pelo grupo PARTHOS tem como objetivo identificar os sentimentos vivenciados pela mulher no período perinatal e no puerpério. Para este subprojeto iremos focar o sentimento da tristeza no período puerperal, trabalhando especificamente com a depressão pós-parto.
Objetivos
Fazer um estudo sobre a paixão tristeza manifestada nas mulheres durante o período puerperal, fundamentado nos pensamentos de René Descartes e Sigmund Freud
Método
A amostra foi composta por 33 gestantes atendidas pela Unidade de Saúde da Família Thomaz Tommasi em Vitória.
Para coleta de dados foram usados os seguintes instrumentos:
• entrevistas abertas, individuais e confidenciais, seguindo o método psicanalítico.
• questionário para levantamento de perfil sócio-econômico
Resultados
Perfil
A amostra de idade das participantes do projeto de pesquisa Parthos, contou com 60,6 % de participantes com idades variando de 21 a 29 anos, outros 21,2 % possuía idade de 30 a 39 anos e as demais com idade menor a 20 anos constitui 18,2% da amostra. Das participantes do estudo 60,6 % possui ensino médio, 27,3 % ensino fundamental e 12,1 % ensino superior. O estado civil predominante das participantes foi solteiro, correspondendo a 39,4%. As participantes casadas representaram 27,3% e as de união do tipo estável 33,3%. Das participantes 39,4% declararam ter tido 3 ou mais gestações, 24,2% duas gestações e 36,4 apenas uma gestação. Das participantes 48,5% tiveram dois ou mais partos, 30,3% um parto e 21,2% nenhum. Das participantes 18,2% declaram ter vivenciado uma situação de aborto na vida. No que confere o planejamento sobre a gravidez atual, 78,8 % mencionou não ter nenhum tipo de planejamento, enquanto 21,2 % afirmaram que sim.
Na tabela, é notória a manifestação da paixão tristeza em porcentagem e em freqüência que apareceram durante as primeiras entrevistas.
Tabela. Citação dos sentimentos.
| Categoria | Freqüência | Porcentagem (%) |
| Tristeza | 20 | 16 |
De um total de 99 citações, apenas vinte manifestações do sentimento da tristeza foram coletadas, totalizando 16%. Dos sentimentos que mais apareceram, a tristeza surge em terceiro lugar no gráfico dos sentimentos vivenciados pelas gestantes.
Discussões e Considerações finais
Na obra As Paixões da Alma, Descartes descreve que a tristeza é a origem da dor e da insatisfação, por não encontrar alternativas para eliminar o mal que a rodeia. E mais ainda, a tristeza, provém da fraqueza que consiste no incômodo que a alma recebe do mal, por isso quando estamos tristes o corpo fica indisposto, apático e enfraquecido. Para Freud (1905), o melancólico apresenta uma ausência de interesse pelo mundo externo, uma desmotivação para realizar as atividades, demonstra um desânimo intenso, perde a capacidade de amar e evidencia, em especial, uma perturbação na auto-estima “a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação” (Freud, 1915, p.276), chegando a uma tentativa de autopunição. Comparando a teoria cartesiana com a teoria de Freud, a tristeza provoca um estado de dor, um enfraquecimento da alma.
John Bowlby, em sua obra “Apego e Perda” aponta para a importância do comportamento de apego, ou seja, o vínculo entre a mãe e seu filho. Afirmando que o desapego por uma perda, temporária ou permanente, pode levar a uma possível tristeza ou o surgimento da depressão. Pode-se notar que Freud, Descartes e Bowlby, dão relevância ao sentimento da tristeza em suas obras.
Na análise estatística dos sentimentos apresentados pelas gestantes, obtivemos um índice de 16% da paixão tristeza nas primeiras entrevistas, que é realizada durante a gestação. Assim, percebemos que já nesse momento aparecem sintomas como irritabilidade, choro fácil e tristeza. No pós-parto esses sentimentos podem se agravar, chegando a uma possível depressão pós-parto.
O distúrbio da depressão pós-parto se caracteriza por sintomas como: tristeza, choro fácil, interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades de rotina; sensação de inutilidade ou culpa excessiva; dificuldade de concentração; fadiga ou perda de energia; distúrbios do sono; problemas psicomotores; perda ou ganho significativo de peso, na ausência de regime alimentar.
A depressão pós-parto, pode se manifestar com intensidade variável, tornando-se um fator que dificulta o estabelecimento de um vínculo afetivo seguro entre mãe e filho, podendo interferir nas futuras relações interpessoais estabelecidas pela criança.
Referências:
BOWLBY, Jonh. Apego e perda. São Paulo: Martins Fontes, 1984. Volume 1 da trilogia.
BOWLBY, John. Apego e Perda, separação angústia e raiva. São Paulo: Martins Fontes, 1984. Volume 2 da trilogia.
BOWLBY, Jonh. Apego e Perda, tristeza e depressão. São Paulo: Martins Fontes, 1985. Volume 3 da trilogia.
DESCARTES. René. As paixões da Alma. São Paulo. Nova Cultural, 1996 (Coleção Os Pensadores).
IACONELLI, Vera. Depressão pós-parto. Artigo publicado na Revista de Pediatria Moderna, Julho-Agosto, v. 41, nº 4, 2005.

Figura 3: Entrevista, no modelo de escuta psicanalítica, realizada em Tucum, destaque a importância de dar voz a gestantes no momento de tantas mudanças.
A culpa e o desejo: interface entre Freud e Descartes
Karina de Cássia Caetano, Claudia Murta
karinacassiacaetano@hotmail.com
A pesquisa de tema A culpa e o desejo: interface entre Freud e Descartes investiga a relação entre o desejo, seu enfraquecimento e a incidência do sentimento de culpa. Ao promover um diálogo entre a compreensão do desejo, tanto no campo da filosofia, quanto na psicanálise, este estudo, que tem como método a escuta psicanalítica, observa a manifestação de vários sentimentos nas gestantes e puérperas, voluntárias oriundas da Unidade de Saúde Família Thomaz Tommasi, Vitória – ES. Os dados dessa pesquisa, que correspondem ao período gestacional, se relacionam com o prenúncio das muitas transformações que ocorrerão na vida da mulher. Destaca-se que a maneira como a gestante lida com tais mudanças influi diretamente no seu bem estar e no do bebê.
Os dados aqui apresentados correspondem às entrevistas realizadas durante o período de janeiro a junho de 2010, com 33 gestantes. Ao analisar os aspectos sócio-econômicos das voluntárias destacam-se algumas observações: das gestantes, 18,2% são menores de 20 anos e a maior parte das participantes da pesquisa, 60,6% tem idade entre 21 a 29 anos, caracterizando um grupo bastante jovem. Outro dado a ser destacado é que 39,4% das mulheres são mães solteiras e 33,3% vivem em regime de união estável. Neste sentido, é possível compreender as emoções geradas pela sensação de desamparo diante uma gravidez, muitas vezes, sem o acompanhamento do parceiro. Além disso, 78,8% das entrevistadas afirmaram que a gravidez atual não foi planejada, o que pode acarretar sentimento de insegurança, abandono e culpa.
Ao promover um diálogo entre a compreensão do desejo em Descartes (1987) e o sentimento de culpa em Freud (1996) esta pesquisa, que se utiliza do método de escuta psicanalítica, observa a manifestação das paixões nas gestantes e puérperas, voluntárias oriundas da USF Thomaz Tommasi.
Entre as paixões analisadas, um sentimento a ser destacado é a felicidade que pareceu em 40% das entrevistadas. Sigmund Freud, na obra Mal Estar na Civilização (1996), elucida que a manifestação da felicidade é sempre limitada pela constituição humana e a infelicidade é a experiência mais habitual (84). Ou seja, a felicidade assim como a pulsão, ou o desejo, nunca é totalmente satisfeita. A compreensão de felicidade freudiana se traduz sob dois aspectos: evitar o sofrimento e ter experiências de prazer. Neste sentido, pode-se compreender a felicidade como o simples fato de ter afastado o sofrimento e a infelicidade. Destaca-se ainda que a felicidade é sempre representada por um prazer momentâneo que, se prolongado, se transforma em fonte de prazer muito tênue.
Outro dado fundamental para análise desta pesquisa denota à paixão desejo, que se manifestou 57% das falas das gestantes. Tal sentimento se manifesta, nas falas, aliado ao amor, à esperança e à alegria gerando segurança e confiança e auxiliando no afastamento do medo e do sentimento de culpa, conforme a fala da gestante: “Na minha primeira gravidez tive depressão, eu não falava, tive que fazer tratamento, eu tinha dezesseis anos e minha filha nasceu com microcefalia. Na segunda gravidez também foi muito difícil, estava para me separar e tinha muita vergonha de ser mãe solteira. Agora na terceira, me sinto preparada, meu namorado me apóia muito, mesmo se depois a gente se separar acho que ele ainda vai me ajudar, isso é bom” (S.R.R., 26).
Nota-se que o fortalecimento do desejo na mulher pode auxiliar no encaminhamento saudável da gestação, assim como a atenuação do desejo pode acarretar problemas na gestação, parto e amamentação. Quando esse sentimento enfraquece, a capacidade de desenvolver atividades é diminuída e, nesse momento, é comum a ocorrência do sentimento de culpa, especialmente quando o enfraquecimento do desejo se relaciona com o medo.
Para que gestação e puerpério ocorram bem, é importante que a mulher esteja atenta à sua posição de protagonista do desejo, além de estar ciente de seu papel dividido entre ser mãe e mulher. A mulher deverá ser capaz de dosar sua função de mãe com as outras atividades de sua vida e manter vivo o desejo diante das mais diversas tarefas que ela deverá desenvolver. Caso contrário, é possível que a mulher se frustre, sinta remorso, arrependimento e culpa.
O obstetra Ricardo Jones (2004) destaca a ligação entre sentimento de culpa e o mundo feminino, decorrente do papel da mulher no mito do pecado original (97). A culpa pode ser compreendida como uma espécie de tristeza que advém da satisfação de um desejo que se configurou numa ação má ou da união desejo com as paixões temor e desespero. Embora o sentimento de culpa não tenha sido analisado do ponto de vista quantitativo, podemos observar sua manifestação a partir das paixões secundárias que enfraquecem o desejo, a saber, o medo e desespero que manifestos em 31% das falas. Ao observar os dados da pesquisa nota-se que em grande parte das mulheres a gestação não é planejada e podemos encontrar, então, uma das justificativas para a alta incidência do medo nas entrevistas, especialmente aliado à surpresa.
A manifestação de medo da perda do amor de familiares e amigos, também é um sentimento recorrente nas gestantes entrevistadas, conforme a fala: “Senti medo, não por ficar grávida, mas medo da minha mãe, pelo fato de eu ser nova, né” (A.C.R., 17). O depoimento da voluntária assinala o quanto a relação entre medo da perda do amor da autoridade pode se manifestar, quando a causa da culpa advém de uma ação mal planejada. Destaca-se que o medo de punição da autoridade e a possibilidade de perda do amor destes, reforçam o sentimento de culpa e podem resultar em traumas para mãe e o bebê. Para evitar tal sofrimento é comum observar nas falas das participantes a negação à própria satisfação para conservação do amor do outro.
Por conseguinte, nota-se que o enfraquecimento do desejo nas gestantes e sua associação ao temor e ao desespero podem agir negativamente nas mulheres deixando-as inseguras com relação ao futuro, à sua condição feminina e ao parto, o que também acarretaria sentimento de culpa, conforme a fala da gestante: “Tenho medo de ganhar o bebê, medo da dor, de dar algo errado” (L.L.S., 19).
Ao se considerar a motivação para ocorrência da culpa proveniente do superego é comum a mulher culpar-se por não cumprir plenamente seu papel de mulher/mãe. O relato da gestante, M.S.S., 23, destaca o medo por receio de não realizar devidamente seu papel de mãe: “Assim, vai ser muito difícil criar de uma criança sem experiência nenhuma, essa é a parte que eu fico triste, como vai ser meu cuidado com ele”.
O enfraquecimento do desejo e a culpa podem gerar problemas como depressão pós-parto, rejeição do bebê e problemas nas relações pessoais. Portanto, ressalta-se a importância de pesquisadores, profissionais da saúde e familiares tratarem do tema. Apesar de sentimentos como tristeza e angústia terem se manifestado nas falas das gestantes, a paixão desejo manteve-se, na maioria dos casos, durante todo o período gestacional. Pode-se perceber que as mães tiveram, no desejo, um importante aliado na manutenção e no bom desenvolvimento da gravidez.
Em conclusão grifa-se que as atividades realizadas para concreção desta pesquisa se inserem no escopo das políticas de Saúde da Mulher proposta pelo Ministério da Saúde. Deste modo, servem como importante instrumento para que a gestante seja informada a respeito das especificidades da sua condição de mulher e mãe. Além disso, as intervenções do Grupo Parthos buscam orientar as participantes para que não sejam afetadas por paixões oriundas da ignorância de aspectos relevantes envolvidos no processo reprodutivo. Por fim, a partir de uma perspectiva fundamentada na humanização, esta pesquisa se insere no Programa de Humanização do atendimento ao pré-natal, parto, puerpério e aborto/Humaniza SUS (BRASIL, 2001) e o no Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal (BRASIL, 2004).
Referências:
BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Area técnica de saúde da mulher. Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à saúde da mulher. Ministério da Saúde, FEBRASGO, ABENFO, Brasília: 2001.
BRASIL, Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal. Brasília: 2004.
DESCARTES, R. As Paixões da Alma. Tradução de Pascale Darcy. São Paulo: Martins Fontes. 1998 [1649].
FREUD, S. Mal estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1929].
JONES, R. Memórias do Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista. Porto Alegre: Idéias a Granel, 2004.



Agora sim! O trabalho dessas meninas pôde ser conferido também na Jornada de Iniciação Científica da UFES em 20/10. Creio que poucas pessoas associam Descartes com o tema sentimento, paixão, etc (Freud é mais comum nestes assuntos). Mas elas mostraram essa “outra face” deste sujeito, além de expor muitos aspectos relacionados ao período da gravidez e do puerpério que eu nem tinha noção… Enfim, ainda não vi tudo, mas o pouco que vi foi show de bola! Parabéns a todos os envolvidos com o trabalho! Cada vez mais admiro as mulheres – em especial as pesquisadoras!
Ei, Pedro!!! Muito obrigada pela presença na jornada! E, claro, pelos elogios! O Grupo Parthos fica muito feliz com suas palavras!!