Relatos

RELATO DE ATENDIMENTO DURANTE O PRÉ-NATAL
Por: Moema Coradini

Participar do Gestante ativa, para mim, foi fundamental para que eu pudesse desenvolver uma gestação com tranquilidade, aproveitando cada momento que nunca mais voltaria!
Conheci Priscila através da indicação de uma amiga de Curitiba. Eu buscava uma doula para estar comigo no trabalho de parto, mas mal sabia o que seria uma doula! Na verdade, até então eu não sabia quase nada sobre a profundidade da magnitude que o nascimento significa na vida de uma mulher. Claro que para mim a vinda do João era muito importante. Óbvio! Mas, às vezes, diante de tantos problemas, diante do corre-corre do dia, diante da cultura do “fast food”, a gente não consegue penetrar a fundo dentro de nós mesmas, imergindo dentro dos nossos sentimentos e vivenciar com intensidade um dos acontecimentos mais sublimes da humanidade – o nascimento. Sabia que seria mãe, queria ser mãe, sabia que teria um filho lindo, mas precisava de mais, muito mais. E eu precisava disso, dessa imersão, dessa redescoberta.
Bom, meu primeiro contato com Priscila foi pelo telefone e ela que “quase não gosta de falar” (!) passou a ficha inteira do parto humanizado (acho que ficamos uma meia hora ao telefone)!!! Marcamos o primeiro encontro e decidi começar algumas sessões de fisioterapia para preparar meu corpo para o parto. Mal sabia eu que, além do meu corpo, minha mente sofreria uma profunda transformação! Sim, porque cada encontro era uma introdução a inúmeros assuntos, dentre eles e talvez o mais importante, a humanização do parto. Esse é o ponto chave de um nascimento: saber respeitar a importância da mulher nessa história, a nossa natureza e, acima de tudo, respeitar a natureza de Deus em nós sabendo esperar pacientemente por todos os sinais naturais de um parto e só intervir (só intervir mesmo) quando for efetivamente necessário. Esse saber esperar é responsabilidade da mulher, da parturiente e ela precisa estar atenta para não atentar contra a sua própria essência, perdida já há algum tempo. Somos mulheres e não podemos nos deixar levar por essa cultura masculina a qual tenta fatigar, matar o papel feminino no nascimento (veja, nada contra os homens, pelo contrário. Mas hoje sou radicalmente contra todo e qualquer argumento que tentar retirar da mulher o seu papel no parto).
Através da Priscila conheci a Cláudia. Como foi bom conhecer esse poço de sabedoria! Demos início aos nossos encontros semanais. Foi por um curto período, porém foram tantas e tantas descobertas, redescobertas, despertares que só depois me dei conta da profundidade da nossa jornada! Ela me conduziu por caminhos seguros. Eu sei que eu fiz muita coisa, mas ter alguém capacitado e responsável ao meu lado nesses momentos que eu queria mexer com meus sistemas mentais é extremamente importante.
Depois de tantos encontros com as duas me tornei uma pessoa melhor, mais forte, mais consciente de mim e dos outros e muito, muito mais responsável com o maior e melhor acontecimento de todos os tempos: o nascimento do ser humano, do meu primeiro filho. Digo sobre a questão da responsabilidade porque há pouco tempo quando eu pensava em parto pensava em marcar minha escova, minha unha e delimitar o dia e a hora para o meu filho nascer, ou seja, marcar a tal cesariana. Como eu estava equivocada! Passei por uma metamorfose. Nada contra a cirurgia, mas desde que ela seja necessária e utilizada com responsabilidade.
Depois de tantos encontros eu já estava preparada para o parto natural!!!
Passadas 42 semanas meu corpo não deu sinal de entrar em trabalho de parto e, por isso, eu e meu médico Dr. Paulo Batistuta, decidimos partir para a indução. Primeiro tentei com acupuntura e, como não funcionou, depois partimos para as medicações. Durante todo o trabalho de parto tive pessoas ao meu lado comprometidas com meu sonho: meu marido, Priscila, Dr. Paulo e Flavinha minha amiga, e ali estava segura e confortável! Pelos profissionais de saúde (médico, fisioterapeuta, enfermeiros) fui tratada e respeitada como sendo uma pessoa, como um ser com sentimentos e valores e não como um cifrão ou mais uma na fila. Isso fez toda a diferença, isso é humanização! Depois de um dia e meio internada no Hospital Santa Rita meu corpo não deu a resposta que queríamos que ele desse e, por isso, parti para a cesárea.
No primeiro momento a cirurgia representou um fracasso em vista das minhas conquistas. Mas depois, pensando melhor, a cirurgia serviu para que eu pudesse ficar mais ainda convicta acerca da luta a favor do parto normal humanizado! Só uma insana pensaria em se cortar desnecessariamente! A dor da cirurgia é terrível! E olha que minha cesárea pôde ser considerada um sucesso!
Toda a experiência foi válida e contribuiu para o que sou hoje: mãe, promotora de justiça a favor da humanização do parto! Deus abençoe a Priscila, Pri como ela gosta de ser chamada, e a Cláudia! Foram e são bênção na minha vida!

PARTO NORMAL COM TOQUE DE SAGRADO
Por: Jucimara Freitas – parto normal

Foto: Andre Alves

Durante toda a minha gravidez, uma das coisas que fiz muitas vezes foi procurar por relatos de parto na internet. Eu os procurava ávida por detalhes que pudessem me orientar, ou seja, procurava por informações de ordem física.
Hoje, após ter vivido o meu trabalho de parto, vejo que muitas informações que obtive nestes relatos me ajudaram a ter uma leve noção de parte do caminho a ser percorrido, mas simplesmente uma noção, pois tive a certeza de que cada
mulher tem seu próprio caminho e, no meu caso particularmente, percebi que não foi no momento do início das contrações que este caminho começou a ser trilhado. O desejo de engravidar, a gestação e quem sabe existências anteriores é que me deram as ferramentas necessárias para iniciar a minha jornada nesta experiência maravilhosa que é o parto.
Em julho de 2005 eu e meu marido Ricardo decidimos ter um filho, mas mesmo assim resolvemos adiar um pouco esta decisão para efetivamente colocá-la em prática em setembro, que foi quando marquei minha consulta com Dr. Paulo
Batistuta que já era meu ginecologista. Porém antes de fazer isto eu tinha uma preocupação com relação ao profissional que iria me acompanhar. Dr. Paulo já era meu ginecologista, mas até então eu não tinha informação nenhuma do seu lado obstetra e quando nos decidimos por ter um filho, a idéia de um parto totalmente natural já era uma certeza na minha cabeça e apoiada totalmente pelo meu marido. Sendo assim, fui buscar informação na Internet sobre parto natural e encontrei o site da ONG Amigas do Parto onde tinha um ícone de indicação de profissionais. O nome do Dr. Paulo (Vencedor do Prêmio Nacional Amigas do Parto 2006) veio como um alívio e encarado por nós como um sinal de que tudo estava conspirando para o sucesso do projeto bebê.
Em dezembro eu engravidei e com 6 semanas já tínhamos esta confirmação e estávamos explodindo de alegria, contando e dividindo com todos a nossa volta este momento tão especial. Infelizmente, quando fomos à ultra-som de 12semanas, foi verificado que o bebezinho estava sem vida. Até hoje não consigo explicar ou externar o tamanho da dor que sentimos, mas mesmo assim tentamos colocar acima de tudo o sentimento de resignação e aceitação do fato como uma aprendizagem, como um fato necessário à nossa existência. Neste momento triste, nós também vimos que estávamos não só com um profissional, mas com um ser um humano solidário. Dr. Paulo nos deu o remédio que precisávamos: carinho, palavras de conforto e a indicação de um livro que nos ajudou muito neste processo de aceitação. Passado este momento, o nosso propósito continuava firme e três meses depois descobri que estava grávida novamente. Desta vez, fomos mais cautelosos, não queríamos contar pra ninguém, era como se estivéssemos protegendo nosso bebê de toda e qualquer força que fosse contrária ao desenvolvimento dele, como se este poder fosse possível. Cada semana que passava era comemorada intensamente, pois o medo da perda era muito grande. Só relaxamos quando fizemos a ultra-som de 12 semanas e lá estava nosso bebê com seu coraçãozinho pulsando fortemente. Como este foi o período da perda do outro bebê, para mim, passar por estas 12 semanas era uma grande corrida de obstáculos. O desejo que este bebê viesse pra nós era tão intenso que cada enjôo, cada desconforto da gravidez vinha pra mim com
muita felicidade, por mais irônico que isto possa parecer. Mas era a certeza de que aqueles sintomas eram sinais de que meu filho estava vivo e se dsenvolvendo saudavelmente em meu ventre. E assim se passou toda a minha gestação, carregada de emoção.
Outro anjo que apareceu nesta gestação, foi a fisioterapeuta e doula. Com cerca de 3 meses de gravidez, uma dor no nervo ciático começou a me incomodar e como Dr. Paulo já tinha me falado desta fisioterapeuta que trabalhava com gestantes, resolvi procura-la. A empatia foi imediata e comecei a fazer o programa de Gestante Ativa que é um trabalho que ela desenvolve. Bendita hora que este nervo ciático começou a doer e tive que procurá-la. Aconselho a todas as mulheres que quiserem o acompanhamento de uma doula, que procurem uma pessoa na qual consigam estabelecer um laço forte de afetividade e cumplicidade durante a gestação, já que estes dois elementos são determinantes para o
trabalho de parto.
Bom, em 09/03/2007 lá fui eu na consulta semanal com Dr. Paulo, nesta altura eu já estava com 39 semanas completas, no outro dia iria iniciar a 40ª semana , a data prevista do nascimento de Miguel.
Fui para esta consulta um tanto desanimada, não sei por quê. Mas estava cansada, pesada demais, enfim… louca para que ele visse algum sinal que meu bebê chegaria logo. Foi feito o toque e estava com 1 para 2 cm de dilatação e como disse Dr. Paulo, o que restava era simplesmente esperar.
Voltei para casa e comecei a sentir leves cólicas durante todo o dia. Eu achei que aquilo se devia ao toque e não levei muito a sério. À noite além das cólicas, me abateu uma tristeza imensa. Chorei muito e não sabia qual era o motivo.
Ricardo chegou e eu estava em prantos, só me abracei a ele e chorava. Era um lamento, um pesar muito doído. Hoje eu acredito que aquilo era uma espécie de despedida da minha barriga, da minha condição de gestante. Era o final de um ciclo maravilhoso. Era o final do período mais sereno e mais feliz da minha vida até aquele momento. Mas também, o choro foi como um sonífero. Dormi profundamente como há muito tempo não conseguia pelo desconforto do final da gravidez. Aí se pode ver o quanto o corpo e subconsciente são sábios.
Acordei cerca de 5h30 da manhã com o que eu julgava uma cólica, só que bem mais forte e aí que eu me toquei que poderia não ser uma cólica e sim uma contração. Esperei mais um pouco quietinha na cama e às 6h fui ao banheiro e neste momento saiu o tampão. Mesmo assim, eu pensei que poderia ainda não ser o trabalho de parto já que o tampão pode sair bem antes do dia D.
Voltei para cama e acordei o Ricardo para contar o que estava sentindo e resolvemos levantar. Como era muito cedo, eu não queria ligar para o Dr. Paulo, até mesmo porque ainda tinha dúvidas se realmente estava em trabalho de parto.
Resolvemos sair dar uma caminhada no bairro com a nossa  filha mais velha. Nossa cachorrinha de um ano e meio. Nesta caminhada comecei a sentir contrações mais fortes e não tive mais dúvidas. Realmente estava em trabalho de parto. Mas seguimos o trajeto todo que Cleo está acostumada. A cada contração ou eu me apoiava no Ricardo ou me apoiava nos muros. Sabia que a caminhada era boa. Aliás, este era um sábio conselho da minha avó parteira. Tudo sem pânico, com muita calma e serenidade. Chegando em casa, resolvi comer um mamão e uma banana, mas tudo ficou pela metade. Com dor não consigo comer. Lembrei que a doula sempre falava que durante o trabalho de parto é ótimo tomar chá de canela, então preparei cerca de 1 litro de chá e comecei a tomar aos poucos.
Lá pelas 8hn resolvi ligar para a doula para dizer o que estava acontecendo. Nada como a opinião de uma mulher que já pariu. Eu queria ter certeza absoluta que realmente Miguel estava para nascer, antes de ligar para o médico. Uma coisa que abomino é ligar para celular de médico. Sempre acho que vou atrapalhar. Bom, Priscila confirmou o que eu já imaginava e não restavam dúvidas. Lá fui eu ligar para o Dr. Paulo que me orientou a começar a verificar o tempo das contrações e disse que nos falaríamos durante o percurso. Exatamente às 08h16min iniciamos a anotar o tempo das contrações. Mas era tudo muito irregular. Algumas de 40s, outras de 1m, ou seja, nada nem parecido com o que o Dr. Paulo nos orientou que seria o ideal para ir para o hospital, 3 em 10 minutos com duração regular.
E assim passamos a manhã, anotando as contrações, andando pela casa, sempre fazendo a respiração diafragmática da forma que aprendi no Pilates e nos exercícios do Gestante Ativa da doula e fisioterapeuta. Isto além de me relaxar, me dava um poder total de concentração.
Como fazia um calor infernal, perto das 11h resolvemos ir para o nosso quarto e ligar o ar-condicionado e deixar a luz bem fraquinha. A meia-luz, o silêncio, e Ricardo sempre me oferecendo seu braço e palavras de conforto, fez com que o tempo passasse e mais um monte de contrações fossem embora, só que estávamos com dúvidas com relação ao tempo das contrações, se estávamos anotando tudo certo. Então às 12h Ricardo resolveu ligar para a doula para tirar dúvidas e para a nossa sorte ela estava em uma reunião na igreja que ficava praticamente na esquina de nossa casa. Ela disse pra ele que passaria aqui em casa e nesta vinda, ela ficou e nos ajudou muito. Orientou-me para ir para o chuveiro que daria alívio nas contrações, fez com que eu andasse pela casa e assim o tempo foi passando. Ela mesma tomou a frente de fazer contato com o Dr. Paulo e marcamos para nos encontrarmos no Hospital Santa Rita às 15h.
Quando foi lá pelas 14h eu fui para o chuveiro e lá fiquei durante um bom tempo. Quando saí que já era para colocar a roupa para ir para o hospital, mas senti que mesmo com o chuveiro desligado a água continuava a escorrer pelas minhas pernas e aí percebi que era a bolsa rompida. Foi ótimo a doula estar junto, pois nesta altura do campeonato eu não teria condições de dizer se o líquido estava azul, branco, amarelo ou cristalino, como ela descreveu para o Dr. Paulo.
A partir deste momento as contrações se tornaram intensas e aí eu vi que até agora só tinha tido levíssimas contrações, mas mesmo assim, eu consegui manter uma concentração que eu nunca julguei que fosse capaz. A cada contração que vinha sempre apoiada ou no Ricardo, ou na doula ou em algum móvel, eu respirava no mesmo compasso que a onda de dor vinha e me tomava e assim eu esperava e deixava passar. O meu corpo respondia como se eu já tivesse um saber longínquo desta experiência. O meu interior tinha certeza que já tinha passado por tudo isto. Para cada contração eu visualizava uma onda que começa, vai crescendo, atinge seu ponto máximo e vai morrendo até chegar na praia. Eu consegui lidar com a dor desta forma, concentrando e acompanhando na respiração até que ela fosse embora e mentalmente eu falava com o meu filho, pedindo a ele que trabalhasse junto comigo e viesse pra mim. Era como se eu entoasse um mantra e assim foi o tempo todo.
Enquanto eu estava nesta viagem mental, Ricardo levou para o carro a nossa mala e a do bebê e eu continuei com a doula ainda no apartamento. Acho que foi neste momento que fiquei sentada na bola que utilizava no Pilates, o que também ajudou bastante na hora em que vinham as contrações.
Fomos para o Santa Rita e este caminho de apenas uns 10 minutos foi muito difícil. O carro é muito desconfortável para uma mulher prestes a parir. Você não tem posição para se apoiar durante as contrações. Chegando lá, cerca de 15h30min, encontramos o Dr. Paulo que me examinou e disse que estava com 5cm de dilatação.
Quando ouvi isto, pensei que se tudo corresse bem, pela média de 1cm por hora, daqui a 5 horas eu estaria com o Miguel nos meus braços.
Dias depois, a doula me contou que na verdade já eram 7cm, mas ele disse 5 para que eu não achasse que já estava com o jogo ganho. Ele sabe das coisas. Pois acreditando que eram apenas 5cm, decidi com toda convicção que poderia ter que não desperdiçaria nenhuma contração. Deixaria que elas tomassem conta de mim para que a dilatação acontecesse. Eu obedeceria apenas o desejo do meu corpo e assim foi. Por muitas vezes eu sentia que meu corpo pedia que eu jogasse a pelve para trás no ápice da contração e eu fazia isso, eu podia sentir que meu corpo ia se abrindo para dar passagem ao meu bebê.
Fiquei por um bom tempo no cavalinho, com a doula massageando as minhas costas e Ricardo segurando minhas mãos. A gente ficava em silêncio, deixando que só o corpo agisse. Houve um momento que eu achei que não agüentaria e até pensei na possibilidade de pedir analgesia, mas no meu íntimo eu sabia que isto era uma covardia já que eu estava indo tão bem. Não tive coragem de verbalizar esta vontadezinha, apenas disse a Priscila que achava que não estava agüentando mais e ela apenas me incentiva dizendo que estava progredindo bem e que eu não deveria desistir.
Saindo do cavalinho, fui mais algumas vezes para o chuveiro e também me aliviava jogar água fria da torneira nos pulsos. Andava pelo quarto e me apoiava na cama e então veio a contração que eu julguei ser determinante para o final.
Na minha percepção, foi o momento de dor mais longo. Mais uma vez joguei a pelve para trás, mas junto com a dor, venho uma sensação de que eu iria evacuar a qualquer momento. Eu já tinha lido muito sobre este tipo de dor, mas naquele momento não lembrei de nada e venho uma sensação de constrangimento que logo foi dissipada pelo apoio da doula que repetia sem parar que isto era um sinal de que Miguel estava chegando, que estava muito perto.
Aliás, já que estou citando constrangimento, não sei se acontece com outras mulheres, mas eu fantasiava muito o meu trabalho de parto. Ficava imaginando ficar vestidinha com aquela camisola do hospital, enfim, toda arrumadinha. O que se passou na realidade é que nem vi a cor da tal camisolinha. Não me lembro o momento em que fiquei completamente nua. Deve ter sido em uma das idas ao chuveiro, é lógico, mas durante todo o processo fiquei nua, sem me dar conta alguma. É tudo tão intenso que você não percebe estas pequenas coisas que incomodam ou constrangem no dia-a-dia.
Voltando ao parto, quando passou esta contração, a doula me aconselhou a ir para o chuveiro enquanto chamaria o Dr.Paulo para me examinar. Acho que ele estava em outro trabalho de parto. E lá fui eu para o chuveiro, sempre
acompanhada de Ricardo, meu fiel escudeiro.
Ficamos lá até eu ouvir a voz do Dr. Paulo. Saímos do banheiro e eu não fui capaz de perceber o quanto o quarto já estava todo mudado e que tinha mais gente. Sei que já tinha bercinho para o bebê, estava a berçarista, enfim, já estavam se preparando para o nascimento e eu não tinha a menor consciência.
Deitei para o exame e senti mais uma contração forte. Como é horrível estar deitada e ter uma contração. Não percebi que Dr. Paulo disse que a dilatação era total, foi Ricardo quem me disse isto. E pra mim a partir deste momento é como se fosse uma cena que eu assistia, uma felicidade intensa me invadiu porque eu sabia que meu filho estava chegando. A partir daí foi tudo muito rápido, lembro que Ricardo sentou num banquinho e foi posicionada a cadeirinha de parto na frente dele, me sentei e me recostei no seu peito. Ainda bem que neste instante a Priscila lembrou da enfermeira do Criobanco que iria coletar as células-tronco do cordão umbilical. Tínhamos esquecido dela. Ainda bem que ela morava muito perto do hospital e chegou a tempo. Mas para mim, a única coisa que me importava era concentrar na respiração para acompanhar estas contrações finais.
Lembro que Dr. Paulo ia me instruindo dizendo o que eu poderia sentir na passagem da cabecinha. Ele dizia que eu sentiria uma ardência. Eu já tinha lido que era parecido como a passagem de um anel de fogo. Eu juro que não senti absolutamente nada de dor, mas tive a percepção total da chegada do meu filhinho. Soube que a cabeça estava chegando. Dr. Paulo até me perguntou se eu queria tocar a cabecinha dele, mas eu estava tão confortável apoiada em Ricardo que não queria sair daquela posição e daquele torpor tão gostoso que estava sentindo. Aí veio mais contração, respiração e saiu a cabeça de Miguel e mais outra veio o corpinho dele. Sempre achei que choraria neste momento, mas acho que o meu entorpecimento era tão grande que não chorei, mas sentia que tremia. Aquilo que estava vivendo era para mim o maior senso de unidade de uma família de verdade. O pai e a mãe unidos por um amor extremo por um bebê ainda unido a mim pelo cordão que foi cortado pelo pai quando parou de pulsar.
O nosso Miguel nasceu às 16h57min, cerca de 1h30min depois de chegarmos ao hospital, com 51cm e pesando 3,495kg. Cheio de saúde com Apgar 10/10, ele veio pro meu colo me cheirando, abrindo os olhinhos e em 20 minutos já estava mamando. Não sei quanto tempo fiquei com ele no colo até que fosse para o berçário colocar suas roupinhas, mas pra mim foi uma eternidade ficar olhando para aquele rostinho. E pensar que aquele era o primeiro bebê que eu colocava nos braços.
Lembrando tudo o que aconteceu, minha atitude diante do trabalho de parto, a palavra que resume este dia foi entrega. 
Não posso conceber um trabalho de parto no qual não ocorra a entrega total. O corpo tem que agir sozinho. A mente ajuda se estiver focada no que o corpo pede. É ele quem vai determinar as emoções e reações deste momento tão lindo. O parto me proporcionou o dia mais bonito e emocionante que já vivi até hoje. Agradeço com toda minha alma e coração, todas as forças que conspiraram para que eu vivesse este momento tão divino, tão sagrado.
Dedico este relato ao meu marido que tem esta alcunha por força da sociedade, mas por força do coração, é o companheiro, o homem amado que corajosamente e amorosamente me acompanhou em cada momento que antecedeu a conclusão nosso projeto mais especial e bem sucedido que foi o nascimento do nosso filho.
* Jucimara Freitas tem 35 anos, mora em Vitória (ES), é despachante aduaneiro. Email de contato: jucimara@rjschulte.com.br

RELATO DO NASCIMENTO DA MARIA
Por: Jucimara Freitas – Parto normal

Foto: Andre Alves

Um relato de nascimento nunca começa neste dia, é todo um processo, uma vivência que se consolida num determinado momento.
Pra mim este processo começou quando nasceu meu primeiro filho, Miguel, hoje com 2 anos e 8 meses.
Quando Miguel nasceu eu estava segura de que ele seria meu filho único. Eu não conseguia me imaginar mãe de outros filhos. Mas o tempo foi passando e minha paixão por ele só foi aumentando a tal ponto de conseguir enxergar que aquele amor de mãe para filho era tanto
que no coração também caberia mais uma, quem sabe duas ou quatro crianças, ou seja, amor de mãe é infinito. Lógico que este sentimento foi compartilhado com meu marido Ricardo. Então 1 ano exato após o nascimento de Miguel eu estava pronta para engravidar novamente, mas sem pressa. O ano de 2008 passou, ouve uma campanha para imunização de rubéola, o que adiou por um tempo as tentativas de gravidez e em janeiro de 2009 descobri minha nova gestação.
No Carnaval eu tive um susto grande, um sangramento e isto para quem já teve um aborto espontâneo talvez seja mais apavorante do que para uma grávida que não tenha passado por isto. Mas fiz uma ultrasonografia com 9 semanas e estava tudo bem. Devido a um acidente com meu obstetra Paulo Batistuta eu não comecei o meu pré-natal cedo como foi na gestação de Miguel. Comecei só em março e até neste período eu tinha uma estranha sensação de não estar conectada com estava gravidez. Talvez pelo fato de não ser mais uma novidade, talvez pelo fato de ter que estar o tempo todo ligada nas demandas de uma criança que ainda iria completar 2 anos, eu levei um tempo a me dar conta de fato que ali estava outro serzinho precisando da minha atenção.
Na verdade teve um ponto em que eu me toquei que não estava centrada na gravidez porque eu sentia uma espécie de culpa em relação a Miguel. Era como se eu estivesse colocando alguém no lugar dele, o que era um sentimento que se mostrava totalmente contrário à razão que me levou a engravidar. Quando eu consegui ter claro no meu coração e mente que era possível me dividir entre os dois, sem minimizar o amor de cada um, enfim os sentimentos fluíram e fiquei em paz. A inquietação passou.
Esta gravidez exigiu muito mais do meu corpo, eu enjoei muito, o nervo ciático se manifestou logo cedo e tive que interromper as caminhadas que costumava fazer. A azia que foi até o último dia de gestação e as dores pélvicas não me abandonaram. A única atividade física que fiz foi o programa de exercícios específicos para grávidas feito pela fisioterapeuta, doula e amiga Priscila Valentim, que eu já tinha feito na gestação de Miguel.
Mesmo assim eu me sentia disposta, afinal não podia parar, meu Miguel estava lá sempre me esperando e exigindo sua mamãe.
Em 15/05 ficamos sabendo que dentro de mim crescia uma menina e imediatamente a chamamos de Maria. Simplesmente Maria. Nossa linda princesinha. Como estávamos aguardando um apartamento que estava em construção e previsão de entrega em dezembro, colocamos nosso apartamento à venda. Não esperávamos que fosse vendido tão rapidamente. Vimos-nos sem casa para morar. A primeira opção foi alugarmos um apartamento, mas minha sogra ofereceu seu apartamento para ficarmos até entrarmos na nossa nova casa.
Em 30/07 com 31 semanas de gestação passei pela turbulência que era uma mudança. Lógico que isto tudo influencia de alguma forma no seu pensar, no seu bem estar, afinal de contas, eu não tinha mais meu ninho, meu canto, meu aconchego. Afinal, a casa da gente é sempre a casa da gente. Ponto indiscutível.
Como isto não tinha como mudar, fomos seguindo…
No dia 21/09 foi numa consulta. Estava quase entrando na 39ª semana. Já estava cansada, ansiosa… já sentia muitas concentrações de Braxton Hicks, algumas contrações já até vinham um pouquinho doloridas, mas eu estava consciente que ainda poderia ter que esperar mais umas 3 semanas.
Nesta consulta foi feito um toque e qual não foi minha surpresa ao saber que já estava com 4cm de dilatação. Ali naquele momento eu soube que poderia ser mais rápido que eu esperava. Fiquei tomada de uma felicidade imensa. Estava louca para conhecer minha pequena.
Fui trabalhar no outro dia, o qual eu tinha determinado que fosse o último. Revi tudo o que podia e por fim concluí a escolha das fotos do aniversário de 2 anos de Miguel que eu ainda não tinha enviado para a fotógrafa. Fechei o envelope, solicitei ao motoboy que entregasse lá e fui embora buscar Miguel na escola.
A noite de terça para quarta-feira foi péssima, não dormi quase nada de tantas dores pélvicas. Não tinha posição. Fui ao banheiro inúmeras vezes e quando amanheceu eu estava muito cansada. Resolvi ficar na cama cochilando até umas 9hs. Almocei apenas uma sopa leve. Não tinha vontade de comer nada pesado. O meu corpo já estava me dando pistas para o intenso momento que viveria horas depois. Devia ser umas 16 horas e o bate-papo via MSN rolava solto entre amigas virtuais unidas
pelo destino. Uma em Vitória (Eu), outra em São Paulo (Kely) e duas no Rio de Janeiro (Ana e Renata). Conversávamos sobre filhos, carreira, filhos… e muita banalidade.
No meio desta conversa eu resolvo mudar de assunto e digo mais ou menos isto: “não quero fazer alarde, mas já tem uma meia hora que estou tendo umas cólicas que eu acho que podem ser sinal de trabalho de parto.” Pronto, isto bastou para a mulherada ficar louca na expectativa e resolvemos começar a cronometrar exatamente às 16:26hs.
As contrações que eu chamava de cólicas estavam bem leves e vinham de forma irregular, em 8min, às vezes em 4min e eu custava a acreditar que aquilo pudesse ser trabalho de parto. Renata dizia para eu ligar para o Dr. Paulo imediatamente, Ana e Kely diziam para eu relaxar e só ligar quando engrenasse mesmo. E eu dizendo pra ter calma porque eu achava que podia não ser nada. Podia ser um alarme falso.
Mas quando foi lá pelas 17:30hs e nada de parar estas “cólicas” eu resolvi ligar para a Priscila, minha doula e contar pra ela o que estava acontecendo.
Falei pra ela que ligaria novamente se as contrações ficassem regulares e só então ligaríamos para o Dr. Paulo. Pra que correr e fazer alarde se não tinha nada certo, não é mesmo?
Mais ou menos neste horário desliguei o computador e me despedi das meninas dizendo que avisaria sobre qualquer novidade.
Quando foi 18h eu passei um torpedo para Ricardo (meu marido) que não tinha chegado ainda com Miguel (meu filho) dizendo que achava que estava em trabalho de parto. Eles estavam na garagem e subiram logo.
Aí expliquei para Rico que ainda não tinha certeza se era trabalho de parto ou não e aí resolvemos dar uma volta com Miguel para que eu andasse um pouco para ver se engrenava.
Foi só colocar o pé na rua que as contrações começaram de 3 em 3 min. Aí comecei os telefonemas: primeiro para Priscila para dizer que engrenou e ela ligaria para o Paulo, depois para a Sil que trabalhava conosco pedir que chegasse bem cedo para preparar Miguel para escola e lógico, passei torpedo para minhas queridas amigas virtuais que estavam ansiosas com notícias. Combinei com Priscila que nos encontraríamos no hospital às 20hs, assim daria tempo para mim e pra ela cuidarmos da nossa vida. Leia-se: alimentar filhos, dar banho, se despedir… etc
Como estávamos na casa da minha sogra eu tinha uma grande preocupação em não assustá-la com o trabalho de parto, então fui fazendo o que precisava ser feito sem alarde. Aí quando ela estava para sair para a aula de francês eu avisei que iria para o hospital porque Maria nasceria naquele dia. Ela a princípio se assustou e disse que não iria e eu disse que fosse porque parto não era rápido assim e afinal eu nem estava com contrações fortes. Ela se tranqüilizou e foi para sua aula e neste meio tempo chegaram meu cunhado e minha cunhada para ficar com Miguel.
Priscila me ligou novamente dizendo que Paulo disse para irmos para o hospital de uma vez, afinal eu já estava com 4 cm desde segunda-feira e já era quarta. Então resolvemos ir logo. Quando eu estava no elevador ele me ligou para me apressar. E eu na minha tranqüilidade, pois não sentia nada forte. Só era regular. Eu não imaginava que seria rápido.
Em torno de 19:50hs chegamos no Santa Rita. Subi super tranqüila. Fomos para a suíte de parto. Ricardo desceu para fazer a internação e eu fiquei lá com Priscila e Paulo para esperar as coisas acontecerem. Vesti aquela roupinha verde horrorosa do hospital. Fiquei andando por lá.
Priscila começou a encher a banheira. Tudo muito tranqüilo para passar o tempo. Eu me desconectei totalmente de horários. Lembro de ter sentado no chão para arrumar qualquer coisa na mala e senti uma contração mais forte. A partir dali tudo foi tomando intensidade. Eu ficava no chuveiro e Priscila massageava minha lombar, jogava água nas minhas costas com o chuveirinho e tudo foi se intensificando. Eu não tinha mais noção nenhuma de tempo. Andava de um lado para o outro e sentia tudo muito sem controle. Comecei a comparar o que estava passando com o trabalho de parto anterior. Eu não conseguia ficar parada. Não tinha controle nenhum das minhas pernas e não conseguia me concentrar na respiração. Era tudo muito forte, muito intenso.
Quando Ricardo chegou ao quarto eu já estava fora de mim e sabe Deus porque estava muito brava. Uma fera para dizer bem a verdade. Eu não queria que ele ou Paulo me tocassem. Mas ao mesmo tempo eu me sentia mal com este sentimento. Como eu podia não querer que o pai
dos meus filhos e meu médico querido tocassem em mim? Então eu assumi a postura que não queria que ninguém tocasse em mim, nem Priscila. Na minha pouca sanidade eu não queria feri-los, então decidi que ninguém me tocaria.
Lembro de estar apoiada na bancada do banheiro e Paulo falar baixinho no meu ouvido que gostaria que eu deitasse para fazer um toque, mas que isto seria no momento que eu quisesse. Eu fui andando para a cama, mas as contrações eram muito próximas. Eu mal tinha tempo de respirar. Ele fez o toque entre uma contração e outra e disse que eu estava com 9cm e que se eu me concentrasse na minha pelve e fizesse força junto com a próxima contração eu chegaria rapidamente aos 10cm. Bastaram duas contrações ali mesma, deitada e ele disse que eu poderia ir para a banqueta de cócoras.
Fui andando e me apoiei num carrinho que estava lá de apoio para gaze e outras coisas médicas que nem tenho noção do que eram e senti a cabecinha da minha filha. Eu disse isto pra eles e Paulo disse que era a bolsa que ainda não tinha rompido. E eu repeti que não era bolsa, que era a cabeça dela e ela ia nascer. Eu estava de costas para ele e aí ele pediu para eu me virar e sentar na banqueta.
Eu não conseguia, disse que não ia sentar. Então ele pediu para que eu me apoiasse no peito de Ricardo e assim foi. Meio em pé, meio de cócoras.
Na próxima contração, sem fazer força, a cabecinha da minha pequena deslizou suavemente envolta na bolsa de águas que Paulo rompeu e na próxima contração nasceu o corpinho. Só então resolvi sentar e pegar minha lindinha. O cordão umbilical era muito curto e eu tive que me abaixar para pegá-la. Mais uma vez eu senti aquele tremor incontrolável que eu senti quando Miguel nasceu. Que emoção indescritível que é sentir aquele corpinho quente, todo seu.
Rapidamente o cordão parou de pulsar e Ricardo o cortou. Ali estava minha linda rosa pronta para ver o mundo aqui fora. E foi feita a magia do nascimento. Mais uma vez a natureza se mostrou perfeita.
Maria nasceu às 21:12hs de 23/09/09 com 51cm, 3.515kg e apgar de 9/9.

Foto: Andre Alves

O PARTO: UMA VERDADEIRA METAMORFOSE NA MINHA VIDA
por: Moema Coradini – parto cesárea

Ao mesmo tempo em que em sentia uma profunda alegria pelo nascimento, também sentia a laceração da minha alma pelo corte do meu útero. Por que meu corpo não evoluiu da forma como eu desejara?
A experiência do parto para mim foi algo realizado em nível crescente. Talvez eu possa dizer que, na verdade, a experiência de ser mãe foi algo evolutivo dentro de mim.
Em princípio eu achava “legal” a história do parto na água e, por consequência, o parto normal, porém
não me dava conta das implicações, dos desdobramentos dessa experiência.
Assim que eu e meu marido decidimos engravidar, eu, como uma boa descendente de um sistema tecnocrata e mecanicista, falava com todos que queria marcar a hora da minha escova, fazer minhas unhas, e marcar minha cesariana. Como eu estava equivocada… Veja que esse discurso mais se assemelhava com a ida à uma festa do que a um dos eventos mais sublimes criados por Deus. Até o sexto mês de gravidez eu não tive muitas condições de pensar na minha própria situação de futura mãe, ou até mesmo de gestante. A partir desse período foi quando eu, deliberadamente, resolvi deixar os problemas dos outros que me acudiam e voltar meus olhos para dentro mim e do ser que estava por vir. Mal sabia eu: esse foi o início de uma grande revolução!
Até esse período de gestação eu sabia que queria um parto normal pelo simples fato de que não desejava uma intervenção cirúrgica para conceber. Eu morria, e ainda morro, de medo de uma mesa de cirurgia. Até então, para mim, o parto normal mais se relacionava ao medo do que o desejo propriamente dito.
Muito além desse medo, algo muito diferente começava a acontecer dentro de mim. Não sei, mas um desejo latente de conhecer mais a fundo tudo o que envolvia a questão “parto normal”. Foi então que, depois de uma conversa com minha amiga Telminha, descobri a doula e, mais de perto, fui apresentada ao parto humanizado. Veja, eu já havia ouvido falar do tal parto humanizado, mas não havia sido apresentada ao mesmo.
Foi então que conheci a querida Priscila, uma menina de 26 anos com uma vivência de uma mulher de 40. Iniciei as sessões de fisioterapia gestacional com ela e cada encontro funcionava como uma fonte inesgotável de descobertas tanto do meu corpo como do temido parto normal. Através da Priscila cheguei a querida Cláudia, uma mulher forte, psicóloga, que me conduziu pela rápida, porém profunda, jornada de descoberta sobre mim.
Como se não bastasse o turbilhão de sentimentos que vinham à tona a cada descoberta sobre mim mesma, também fui introduzida às experiências de muitas mulheres através do maravilhoso livro do Dr. Ricardo Jones – Memórias de um homem de vidro; Esse livro foi fundamental para que eu pudesse verdadeiramente desejar do fundo do meu ser me desconectar da tal “Matrix” e me voltar para a essência de Deus em mim. O parto não mais representava um medo em si, mas sim algo sublime envolvendo o nascimento de uma vida criada pelo Deus e que, acima de tudo, eu deveria respeitar e encarar o processo do nascimento como algo sagrado, merecendo o mínimo de intervenção possível.
Com 38 semanas troquei de médico e fui até o Dr. Paulo Batistuta (já morrendo de vergonha porque havia decidido a troca no último minuto do segundo tempo) e ali, naquele consultório, conheci um médico profundamente comprometido e respeitador da natureza feminina. Nada contra o médico anterior, de forma alguma. Porém, naquele momento, era extremamente importante para mim saber que poderia contar com um profissional que entendesse o que se passava por mim e, ainda, não interviria com uma cirurgia desnecessária. Era importante para mim, saber que, se operada eu fosse, seria um caso de necessidade e não de conveniência do profissional.
A troca não foi anunciada a ninguém, nem à família porque eu sabia bem seria questionada, como já vinha sendo questionada pelo meu desejo do parto natural. Engraçadas essas coisas! Quando anunciava o meu pensamento inicial sobre o parto nem uma alma era capaz de me questionar. Todos riam e achavam a maior graça. Porém, quando anunciei que esperaria o parto natural até a 42ª semana de gestação e queria essa modalidade de parto, o mundo inteiro ao meu redor passou a me perguntar e tentar incutir medos e mitos acerca do parto normal. Terrível isso. E até pouco tempo eu não conseguia entender o porquê das pessoas não respeitarem esse meu desejo. Agora eu sei, estávamos todos (e alguns ainda estão) conectados à ideia da masculinização do nascimento, esquecendo-se de que tanto este como a gestação em si são coisas completamente absorvidas pelo mundo
feminino e precisam ser encaradas como “O processo da vida, e como tal merecem profunda atenção de todos, em especial dos profissionais da saúde assistentes da parturiente.
Passadas 41 semanas e 5 dias eu ainda não havia entrado em trabalho de parto. Decidimos então partir para a indução. Primeiro a acupuntura e depois a parte médica propriamente dita. As agulhinhas não funcionaram. Partimos então para a medicação.
Na quarta-feira pela noite dei entrada no Hospital Santa Rita com o coração cheio de esperança e ansiedade:
Como seria minha experiência de parto?
Tomei minha primeira medicação. Na quinta-feira passei o dia
inteiro no hospital imergida no mar das minhas emoções, aguardando o que estaria por vir. Eu não queria a companhia de ninguém, queria me preparar para as próximas horas.
À tarde comecei a sentir algumas dores no pé da barriga, vi sangue saindo de mim e me alegrei em saber que o processo de indução havia começado. Por volta das 19 horas chega ao hospital meu querido marido, Fábio. Às 21 horas chegam Priscila e Dr. Paulo. Iniciei o trabalho com a ocitocina. Mas tarde minha querida amiga Flávia chega ao hospital
para fazer companhia. A madrugada foi recheada de muitas contrações, muitas emoções, necessidade de muita concentração para suportar cada
onda de contrações que vinham e voltavam. Mas nada insuportável e sim envolto com um sentimento de muita gratidão ao Pai por estar vivendo a experiência que marcaria minha vida para sempre. Na verdade a dor da contração não machuca. Ela dói, isso é fato, mas não fere nossa alma.
Às 3 horas da madrugada de sexta-feira fizemos o primeiro toque: quase 4 cm de dilatação. A ocitocina foi retirada e deixamos que meu corpo evoluísse no trabalho de parto. A sala de parto ficou muda, só se ouvia a canção fluindo do meu aparelho de som. Todos dormiram e eu, depois de um breve cochilo, passei as próximas horas na companhia das minhas
contrações. Qual não foi minha surpresa: as contrações havia diminuído de uma forma avassaladora e eu vi que alguma coisa não funcionava bem. Meu corpo parecia que dormia. Os batimentos cardíacos do bebê iam muito bem, mas meu útero não me dava a resposta que eu tanto queria. Às 7 horas da sexta-feira novo toque: não havíamos progredido na dilatação. Quanta frustração nessa hora… Horas na ocitocina, horas com contrações naturais medíocres para nada. Além do cansaço físico por causa das dores, eu também estava consumida pelo desgaste da minha mente… Tentamos colocar a ocitocina por mais duas horas, mas minutos após o início do gotejamento do novo frasco, após pensar e repensar, resolvi não mais progredir no processo e fazer uma intervenção cirúrgica o que foi anuído pelo Dr. Paulo. Pensar que depois de quase 10 horas de início de trabalho de parto eu só havia dilatado quase 4 cm trouxe uma grande frustração. Eu não havia me preparado para isso. Desejo vacilante? Talvez. Pensar que poderia ficar mais algumas muitas horas em trabalho de parto e ainda com o bebê virado para o lado direito (o que implica uma rotação maior e mais lenta no período expulsivo) me atormentaram. Se pelo menos tivéssemos chegado a 5 cm inteiros…
Nesse momento, por um lado minha alma estava despedaçada, por outro estava desejosa pela chegada do meu querido filho João. Daí em diante, depois do último toque, o que mais importava para mim não era o parto em si, mas a vontade de conhecer o ser que cresceu e se formou dentro de mim. Não sei se suportaria mais algumas muitas horas de trabalho
de parto. Não pela dor em si, mas pela frustração de não ter evoluído sozinha nas contrações. Pouco tempo depois estava eu com meu filho no colo, ambos chorando juntamente com meu marido!

Foto: Priscila Valentim

Ao mesmo tempo em que em sentia uma profunda alegria pelo nascimento, também sentia a laceração da minha alma pelo corte do meu útero. Por que meu corpo não evoluiu da forma como eu desejara? Essa é uma pergunta que eu nunca saberei responder. Talvez pudesse insistir um pouco mais. Mas era seguro?
Depois de haver me costurado Dr. Paulo, na tentativa de me consolar, disse que depois de um tempo de evolução do meu parto a indicação médica seria operar. Porém, como tudo ia muito bem com o bebê e comigo (pressão arterial etc.) decidiu-se por respeitar meu desejo. Isso funciona como prêmio de consolo. Eu poderia esperar um pouco mais, mas minha mente não queria mais.
Apesar da cirurgia, coisas muito valiosas, talvez muito mais importantes, aconteceram comigo nesse período:

1) O religamento da minha alma ao meu espírito para poder respeitar a vontade do Pai em mim. Eu digo religamento porque, de regra, nossas vidas estão altamente comprometidas; para não dizer contaminada – com a cultura do *fast food* ; pelo menos a minha estava ou ainda em parte está; e nos esquecemos da nossa natureza humana com um corpo, uma alma e um espírito. Eu esperei o máximo que pude para o parto natural e só resolvi intervir quando não era possível continuar no processo (tanto em relação à indução quanto à cirurgia). Depois de passar pelo vale das contrações vi como elas foram importantes para o nascimento saudável do João, o qual teve Apgar 10/10;

2) Durante todo o processo do parto tive meu marido ao meu lado, com sua doce e simples presença. Não haviam palavras, apenas olhares de encorajamento. Isso fez muita diferença para nós como um casal. Houve uma revolução entre nós!

3) Conhecer pessoas tão maravilhosas como Priscila, Cláudia e Paulo, os quais estiveram comigo na minha jornada de descobertas. Cada um na sua especialidade, usando todos os seus métodos acadêmicos, toda a
ciência que buscaram ao longo dos anos, porém, nunca se esquecendo que quem paria era uma pessoa com sentimentos, com personalidade, com seus medos e agústias. Tanto eles como minha amiga Flávia me respeitaram, me encorajaram, estiveram comigo. Isso importou e importa muito!
Como se pode ver, o parto natural para mim não aconteceu. Na verdade tudo se deu da forma como eu menos queria: da indução à cirurgia. Isso me deixou com certa frustração e durante a primeira semana de vida do João eu só pensava nisso sem aproveitar a maravilhosa experiência da maternidade. Mas, quer saber, pensando bem, o parto não é um fim em si mesmo, ele faz parte de um processo, talvez seja um rito
de passagem (pelo menos para mim funcionou dessa forma), um marco na vida de uma mulher. De igual modo, não há dúvidas de que toda a vivência me proporcionou uma nova visão de mundo, de pessoas, e por isso não há como enfrentar meu trabalho diário da mesma maneira. Não há dúvidas também que me esforçarei através da minha profissão para trazer ao serviço de saúde; público ou privado; a inclusão da humanização do parto. A causa ganhou mais uma adepta.
Eu sou muito grata pela experiência do quase parto normal, assim como sou grata pela revolução ocorrida dentro de mim; hoje sou outra pessoa. O mais importante dessa história toda é o que estou vivendo agora e, caso opte por ter mais filhos, não abrirei mão de tentar mais uma vez a experiência do parto normal humanizado. Quem sabe meu corpo me dá uma boa surpresa?!

foto: arquivo pessoal

* Moema Coradini mora em Vila Velha (ES), é promotora de justiça no ES. Email de contato: moema.gcoradini@gmail.com

RELATO DO NASCIMENTO DO PEDRO (Cesárea) e JOÃO (Normal)

por: Carolina Bonadiman Esteves

Depoimento sobre os partos de Pedro e de João  CLIQUE para ler o arquivo PDF

Uma resposta para Relatos

  1. Simone Soares Scolforo Lemos e Pr Dalmario M. R.Lemos disse:

    Oi Pri.
    Estamos muito felizes com a chegada de Raquel. Temos certeza que ela irá abrilhantar esta família tão bonita e especial que é você, Bernardo e Milena. Tudo no blog está muito bonito e percebemos que foi feito com muito amor e carinho. Tudo com a sua cara, com o seu jeitinho e toque especial. Que Deus a cada dia abençõe vocês e de sabedoria na educação e criação das duas filhas maravilhosas que vocês terão. Como benção do Senhor, elas darão a você e Be, muitas alegrias e serão aperfeiçoados no amor…….Que possamos caminhar juntos numa grande amizade, a cada dia abençoando e também sendo abençoados.Gostamos muito do relato do primeiro parto,onde é relatado a chegada de Milena, a primeira princesinha da família.Ficamos a cada dia vendo como o nosso Deus é um Deus tremendo e fiel. Amamos muito vocês.
    Simone e Pr Dalmario

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